DESCAMINHOS SOMBRIOS
Um Conto de Natal - Por Tânia Souza
Tânia Souza
I
Ela sorriu... Os flocos gelavam o seu nariz. Ia e vinha no balanço enquanto a neve descia sobre a cidade. Poderia voar. As outras crianças também sorriam. Mas algo não estava perfeito. Em um canto, olhos claros e maléficos a observavam. A neve agora escurecia. O tom era avermelhado e parecia cortar como veias trincando a brancura. Ergueu os pés horrorizada, a neve de sangue não iria tocá-la. Mas os flocos vermelhos caíam do céu e iriam sujar seu vestido e seu rosto. Ficariam cobertos por sangue. Eram apenas crianças. Começou a gritar.
Quando chorar é uma opção
A solidão não é tão bonita quanto nos livros.
A tristeza nem sempre se recolhe em abraços.
Nem todas as lágrimas morrem em beijos.
E nem sempre as palavras ditas, ouvidas ou escritas, têm poder de curar...
Para dias de chuva e outras melancolias
Ou quando chorar é uma opção
Tânia Souza
Não chore! Enfrente! Recomece! Ignore! Siga em frente! As coisas vão melhorar! Erga a cabeça, é hora de recomeçar...
Palavras... algumas mais delicadas, feitas de vocábulos tecidos em abraços e lenços, outras, se fazem ásperas, vestem faces duras e frias e avisam: choro é para engolir. Lágrimas são sinais de fraqueza.
Palavras, palavras, palavras... e toda uma semântica de sobrevivência.
E a menina que teve o azar de nascer com um imenso e grave caso de sensibilidade um dia cresceu e descobriu que ser sensível demais não é uma boa estratégia. Quando a alma está estilhaçada, melhor sobrevive o rosto em máscara.
Depois, a mulher do agora descobriu que chorar é se por em evidência, chorar é permitir acesso ao mais íntimo da dor ou da alegria, e um dia, finalmente, ela abandonou a menina e aprendeu a não chorar. Por que chorar é ser vulnerável e ser vulnerável é... é ser vulnerável.
E isso, as vezes dói.
Então, ela se veste de forte. É seguro, mas extremamente solitário ali, no cantinho secreto onde a sensibilidade insiste em sobreviver. Alguns dias, os ombros doem, há decisões a serem tomadas, pessoas que pedem colo, nãos e sins esperando para serem ditos... ela bem sabe, isso se chama viver. Também sabe que alguns amigos gostam apenas de sorrisos, tristeza pode ser um interessante repelente. Há também os que se alimentam dela, tão opostos e tão iguais. Alguns poucos são para todas as horas, mas que raros são.
Há também algumas pessoas que podem, e gostam, de ferir as outras! E chorar ou não, não vai impedi-las. Mas ainda assim, persiste. Sorria e siga em frente, algumas vezes ela ainda repete o mantra, abismada consigo mesma por ensinar a mesma lição. Saber todas as cores da indiferença ela não sabe, pensa apenas em sobreviver.
Mas um dia, a força não adianta, o sorriso quer se esconder e os olhos não seguram mais. As lágrimas são assim, de certa forma, independentes. As dores guardadas, a indiferença, os resquícios de algumas tristezas são tocados por situações inesperadas. Assim como há vida, há morte. Assim como se está bem, pode ser estar enfermo, triste ou frágil.
E quase com vergonha, ela percebe que nada lhe resta a não ser chorar!
As lágrimas caem. O nariz fica vermelho, a boca inchada. E ela não tem onde se esconder. E o pior? Outras faces com lágrimas esperam por ela, pelo sorriso e pela força dela. Parece terrível. E é! Mas o sorriso se perdeu, ela sabe que velhas palavras soam vazias.
Então, ela descobre que chorar também é uma opção. Para disfarçar a dor, fala de si em terceira pessoa, mas está reaprendendo que lágrimas compartilhadas ainda doem, mas talvez assim, sejam mais fáceis de secar. Pois, por mais que tenha aprendido a esconder, a menina insistiu em sobreviver.
A solidão não é tão bonita quanto nos livros.
A tristeza nem sempre se recolhe em abraços.
Nem todas as lágrimas morrem em beijos.
E nem sempre as palavras, ditas, ouvidas ou escritas, tem poder de curar...
Mas algumas vezes, essas coisas desimportam e de um jeito ou de outro, é preciso continuar.
Estilhaços
Cacos. Os pedaços do espelho estão sujos, marcado pelo tempo. Assim como o rosto refletido. A mulher não se reconhece na nudez do reflexo. Cabelos oleosos caem, ralos e desordenados, ocultando seus traços. Olhos grandes, circundados por uma sombra escura, não escondem: ela tem medo. E cansaço.
Quando ergue as mãos e toca os longos fios, eles se soltam e caem por entre os seus dedos. Ela sorri com tristeza, a mão desce e com suavidade passeia por onde antes existiam curvas e sente os ossos pontiagudos, parecem perfurar a pele de dentro para fora.
Um ruído interrompe seus devaneios e um rato minúsculo percorre o aposento. Fome, sim. Forças para caçar, não. Um desperdício, já não havia tantos ratos na velha habitação. O camundongo se foi entre os detritos.
Ela sabe que é fraca. Sempre o soube. Fraca demais para o combate, fraca demais para desistir. Mas a face refletida nos cacos do espelho está decidida. Uma faca do mais puro aço reflete a luminosidade que vem lá de fora. O aço brilha como seus olhos. Suavemente, ela encosta a lâmina nos lábios, ainda atenta ao espelho. Um beijo gelado, murmura. E ri.
“Essa gracinha pode durar muitos e muitos anos. E salvar a sua vida, meu amor. Limpeza, amore, é preciso lavar com cuidado, secar, não deixar em contato com outros metais e nunca, nunca expor ao fogo.”
Ela gosta do contato frio contra o mormaço em sua pele. Sente a lâmina afiada e, de olhos fechados, imagina seu sangue escorrendo sobre o aço com delicadeza. Os dedos adivinham o cabo de marfim, a parte serrilhada, e a unha raspa a ponta perfurante. Linda! Letal! Riu novamente.
Houve um tempo que rir era comum. Como quando ouviu pela primeira vez falar no fim. O fim dos tempos, o fim do mundo. Depois, toda a alegria se fora.
Decidida, a moça ergueu a faca. As longas mechas caem pelo chão. Os cabelos vão sendo cortados sem rumo até ficarem mais ralos. Não fossem os seios miúdos, poderia ser tomada por um garoto. Mas é justamente o que ela deseja.
Ela nunca acreditara no fim. E estava certa. O fim realmente não havia chegado. Não para ela. É uma sobrevivente, pois para desistir, também é preciso coragem. E isso, a garota nos cacos do espelho não tem.
Fraca demais para desistir
Fraca demais para morrer...
Continua...
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